Há uma antiga história oriental sobre um fio vermelho invisível que conecta pessoas cujos caminhos, em algum momento, se encontram. Gosto menos da ideia de destino e mais do que ela diz sobre os encontros: às vezes, só quando olhamos para trás conseguimos perceber o fio que ligava acontecimentos que, até então, pareciam não ter relação entre si.
Foi assim com a minha história.
Não existe um único motivo pelo qual sou nutricionista oncológica hoje. Existem vários, espalhados por uma vida inteira, e nenhum deles começou como uma escolha de carreira. Durante muito tempo, foram apenas experiências de momentos diferentes da minha vida. Foi preciso vivê-las para, só depois, entender o que havia entre elas.
Meu primeiro encontro com o câncer aconteceu antes de eu poder escolher qualquer profissão. Minha mãe fazia trabalho voluntário na Associação de Apoio à Criança com Câncer (AACC), em São Paulo. Ainda pequena, eu a acompanhava. Foi ali que conheci uma realidade muito diferente da minha. Eu era uma menina saudável brincando ao lado de crianças que não sabiam se teriam a mesma sorte. Não entendi tudo o que vi. Entendi o suficiente para carregar aquilo comigo.
Em casa, cuidado tinha outro nome: comida.
Cresci em uma família de raízes italianas e nordestinas, onde o amor também se demonstrava pela mesa posta e pelo prato preparado com atenção. Não porque sobrasse tempo, mas porque era assim que se cuidava de quem importava. Antes de saber qualquer coisa sobre nutrientes ou metabolismo, aprendi que alimentar alguém podia significar muito mais do que oferecer comida.
Anos depois, comecei a estudar Medicina longe do Brasil, em um lugar onde não havia os mesmos recursos de imagem e exames que temos por aqui. Desde o início da graduação, íamos para as ruas, de casa em casa, de bairro em bairro. Sem tantos recursos, era preciso escutar direito: o sintoma, a rotina, o que havia mudado, o que preocupava. Deixar passar um detalhe podia significar deixar passar algo importante sobre aquele paciente.
Foi também nesse período que percebi que a Medicina cuidava da doença, enquanto eu queria cuidar da saúde. E a alimentação, de alguma forma, sempre esteve no centro disso. Quando alguém diminui ou para de comer, mesmo quem não entende de saúde percebe que alguma coisa não vai bem.
Comida nunca foi apenas nutriente para mim. É prazer, emoção, memória, união em volta da mesa. É uma das formas mais antigas de amor que conheço. Ela esteve na minha vida desde sempre. Eu só precisava voltar para ela com outro olhar.
Troquei de área não como quem desiste de um caminho, mas como quem finalmente encontra o nome certo para aquilo que procurava. E levei comigo uma das lições mais importantes que aprendi na Medicina: antes de qualquer conduta, é preciso escutar.
Mais tarde, aprendi isso também do outro lado.
Até hoje convivo com uma dor que nem sempre pôde ser vista. Foi somente quando alguém a enxergou de verdade que ela deixou de ser questionada e passou a ser tratada pelo que sempre foi: real. Saber, por experiência própria, o que custa não ser levada a sério mudou a maneira como escuto meus pacientes.
Nem tudo o que uma pessoa vive aparece em um exame. Existe alguém antes do diagnóstico e uma vida inteira acontecendo ao redor dele. Família, cuidadores, trabalho, rotina, relações, preferências, medos e responsabilidades não desaparecem quando o câncer chega. Tudo isso faz parte da pessoa que está diante de mim e, portanto, também precisa fazer parte do cuidado.
Foi na Oncologia que esses caminhos voltaram a se encontrar.
Retornei a ela como nutricionista, formada em Oncologia pelo HC-FMUSP. Hoje faço mestrado em Nutrição na UNIFESP, investigando a relação entre dieta e câncer, depois de uma temporada na Sapienza Università di Roma, na Itália, estudando caquexia com o professor Dario Coletti, PhD. Entender os mecanismos por trás da perda de peso no câncer é, para mim, parte do cuidado. A ciência me ajuda a compreender o que acontece com o corpo; a escuta, como isso acontece na vida de cada pessoa.
Há algo que procuro levar para cada encontro: que a pessoa saia dele, de alguma forma, melhor do que chegou.
Na Oncologia, isso nem sempre significa estar melhor. Nem tudo pode ser resolvido em uma consulta. Nem sempre será possível devolver o apetite, recuperar o peso ou tornar um dia difícil mais fácil. Mas sempre é possível escutar sem julgar, explicar sem assustar, respeitar limites e não acrescentar culpa a quem já está atravessando tanta coisa.
Quando olho para trás, consigo enxergar o fio que une aquela menina na AACC, a comida como expressão de amor, a Medicina, a experiência de não ser ouvida, a Nutrição, a ciência e o meu retorno à Oncologia.
Hoje, esse fio encontra outras histórias.
Não quero conduzir a história de quem chega até mim, porque ela não me pertence. Quero fazer parte dela durante o trecho em que nossos caminhos se cruzarem, oferecendo ciência para orientar minhas escolhas, escuta para compreender as suas e cuidado para enxergar cada pessoa por inteiro, não apenas o que aparece no exame.
Talvez seja isso que aquele fio sempre tenha significado para mim: não um destino traçado de antemão, mas os encontros que nos transformam e também transformam a maneira como escolhemos estar na vida de alguém.
Foi assim que cheguei até aqui. E é assim que escolho cuidar.